Por que as ligações do WhatsApp são tão ruins?

Nana Soares e Rafael Aloi
Especial para o Estado

Quando o WhatsApp lançou no Brasil o recurso de chamada de voz (VoIP), muitas pessoas viram nele a oportunidade de conversar com amigos em qualquer lugar do mundo sem precisar utilizar a rede telefônica. Dois meses depois de ficar disponível para celulares Android e um mês após ser liberado no iOS, o serviço ainda recebe muitas críticas de usuários que alegam problemas como baixa qualidade das ligações, incluindo problemas como ouvir eco da própria voz, atraso na transmissão da fala (“delay”) e dificuldade em estabelecer ou manter a ligação.

A estudante Flávia Busatto, de 21 anos, mora em São Paulo e utiliza o serviço quase diariamente para falar com familiares no Rio Grande do Sul e com o namorado que vive em Maputo, capital de Moçambique: “Tenho muito problema com sinal ruim, mas o que mais me incomoda é o ‘delay’ das ligações. A pessoa sempre demora pra ouvir o que você fala e eu também sempre demoro para ouvir a resposta”.

Os problemas que Flávia enfrenta nas ligações podem ser causados por má qualidade do sinal da rede de celular que utiliza. Segundo Milton Kashiwakura, diretor de projetos especiais e desenvolvimento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (Nic.br), para realizar uma ligação VoIP é necessária uma conexão estável: “a rede atual não está com a qualidade adequada. Não tem cobertura o suficiente, e as conversações precisam de conectividade para ocorrer. Quando você utiliza aplicativos de pequena quantidade de dados e de forma esporádica, a rede 3G suporta bem. O grande problema é quando se precisa de um fluxo contínuo.”

Por isso, para Eduardo Tude, presidente da Teleco, o fator mobilidade também conta muito para o bom funcionamento do serviço, já que poucos metros de distância podem significar grande diferença na cobertura. “Só a internet não resolve o problema nem garante que o VoIP vá funcionar bem. É necessário criar a infraestrutura como um todo”, esclarece. Kashiwakura também concorda que a cobertura varia muito, além da falta de antenas em certas regiões, que tem forte influência sobre o serviço.

“Muitas vezes a rede fica congestionada. Por exemplo, aqui em São Paulo, no final da tarde, muitas pessoas começam a usar e fica mais difícil manter uma conectividade constante. Esse é um problema típico da rede celular”, explica.

Flávia percebe essas variações no sinal durante suas ligações por VoIP, principalmente nas internacionais: “acho que [a qualidade] depende muito do meu sinal 3G, e eu uso mais por ele do que pelo Wi-Fi.” Além do WhatsApp, ela também utiliza outros aplicativos com serviço similar, como o Viber e o Skype. “Geralmente prefiro o Viber, mas pelo 3G o WhatsApp costuma ter um sinal melhor”, diz a estudante.

Mas como o VoIP funciona?

A sigla VoIP significa Voz sobre Protocolo de Internet (Voice over Internet Protocol em inglês), e, como o nome diz, transmite nossa voz por Protocolos de Internet (IP). Na prática, essa tecnologia pega sinais analógicos, que emitimos na nossa fala, e transforma em dados digitais que são enviados pela internet e reconvertidos em voz quando chegam ao destino.

As ligações podem ocorrer de duas maneiras: entre dois computadores (ou aplicativos) ou entre computador e um telefone convencional. Quando a ligação ocorre totalmente através da internet, ou seja, quando quem ligou e quem atendeu estão utilizando programas conectados à rede, a ligação é gratuita. Já quando o destino final é um telefone convencional, há cobrança de tarifa, pois é necessário acessar a rede de telefonia para completar a ligação.

No caso do WhatsApp, quando o usuário inicia uma ligação com o uso do VoIP, sua chamada será produzida através do aplicativo e consumirá os dados de internet móvel (ou de banda larga, caso esteja conectado a uma rede Wi-Fi). Da mesma forma, quem recebe a ligação também estará usando o aplicativo e só conseguirá atender se estiver conectado à internet, não envolvendo os minutos de chamadas telefônicas. Como todo o processo envolve conectividade, uma ligação VoIP de qualidade está atrelada a uma boa conexão de internet.

A tecnologia não é tão recente quanto parece, tendo sido desenvolvida na década de 1990, mas como as redes da época possuíam baixa velocidade de transmissão de dados, o uso era, na prática, inútil. Com a popularização e melhoria da internet banda larga, a tecnologia VoIP foi resgatada.

Operadoras

Não é segredo que a expansão da internet móvel fez com que as operadoras de celular começassem a investir nos serviços de aplicativos de mensagem e voz para reerguer suas receitas, afetadas pelo uso cada vez menor de ligações e SMS. Mas a instabilidade do serviço VoIP gera especulações de que as empresas possam estar filtrando esse tipo de ligação, a fim de forçar os clientes a utilizar o meio convencional.

Os especialistas ouvidos pelo Link garantiram que filtrar o tráfego para o VoIP (seja para melhorar ou piorar o serviço) é proibido, ferindo o Marco Civil da Internet. Em testes realizados pelo Nic.br, também não foi percebida nenhuma irregularidade por parte das operadoras.

O Brasil não possui regulamentação sobre o serviço VoIP, e, em comunicado enviado pela assessoria de imprensa, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) informou que “não regulamenta o uso de tecnologias, mas os serviços de telecomunicações que delas se valem”. O órgão afirmou também que o serviço é benéfico, já que reduz os custos operacionais ao usar uma única rede para transportar dados e voz.

O Link entrou em contato com as quatro maiores operadoras do país: Vivo, Oi, Tim e Claro, e todas disseram não ver o VoIP como um serviço concorrente, mas sim complementar ao serviço tradicional de ligações.

Segundo a Oi, a receita proveniente de internet móvel sustenta o crescimento em todo o setor de telecomunicações. Além disso, “se percebe uma importância cada vez maior do consumo de dados e serviços, enquanto as receitas de voz local, longa distância e SMS se mantêm estáveis ou em queda.”

Quando questionadas sobre a qualidade da cobertura, as operadoras disseram considerar suas redes adequadas e dentro das metas de qualidade da Anatel. Para a Vivo, os problemas que os clientes enfrentam com o VoIP podem ser causados pelos próprios programas: “os aplicativos que utilizam voz sobre IP, como é o caso do WhatsApp, estão sujeitos às particularidades da tecnologia VoIP e, consequentemente, seu funcionamento depende de fatores inerentes a essa tecnologia.”

A Tim é a única operadora que oferece um plano exclusivo de uso ilimitado do WhatsApp, em que o usuário pode enviar mensagens de textos e arquivos de imagens e vídeos pelo aplicativo sem o desconto da franquia de dados, mas o serviço de VoIP está fora dessa negociação. Segundo o diretor de engenharia da operadora, Marco Di Costanzo, quando foi fechado o acordo com o aplicativo, ainda não existia essa funcionalidade e por isso ela não é oferecida aos clientes. “A TIM não pode garantir a qualidade dos serviços de voz providos através do WhatsApp, uma vez que não tem o controle do serviço. Isto reforça manter as ligações VoIP WhatsApp fora do acordo”, esclarece.

Di Constanzo também conta que a empresa “aportará mais de 500 mil reais por hora, ininterruptamente, nós próximos 3 anos” para melhorar a tecnologia da sua rede e acompanhar a mudança de hábito dos consumidores. “Realizamos com sucesso testes para chamadas de voz sobre a rede 4G utilizando o protocolo IP. Os serviços de voz possuem requerimentos muito diferentes dos serviços de dados, por exemplo, delays não são aceitos, enquanto para dados este requerimento pode ser moderadamente suportado ou até mesmo minimizado com técnicas avançadas”, explica.

Para Eduardo Tude, ainda é necessária uma evolução da tecnologia para garantir o bom funcionamento do serviço, destacando-se aí o crescimento da rede 4G no país. Na configuração atual, ele acredita que é preciso avaliar quando realmente compensa utilizar os serviços de VoIP, pois “a não ser em casos de necessidade, as mensagens de voz e texto já cumprem o objetivo e consomem muito menos dados. Há situações que justificam o uso, mas de um modo geral, é melhor teclar.” O especialista recomenda aos usuários que tenham nos celulares algum aplicativo que controle o consumo de dados móveis, e calculem os a quantidade utilizada por cada serviço.

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